Biobancos

Rede de biobancos e seu papel na integração da pesquisa científica

Escrito por 21brz

03 FEV 2026 - 17H00

O avanço da pesquisa científica em biotecnologia nas áreas da saúde, indústria, agricultura e biodiversidade têm ampliado de forma significativa o uso de amostras biológicas humanas, animais, vegetais e ambientais. Tecidos, fluidos biológicos, células, linhagens microbianas, DNA, RNA e os dados associados ao material biológico passaram a ser insumos estratégicos para o desenvolvimento de diagnósticos mais precisos, terapias personalizadas, vacinas, estudos epidemiológicos, controle biológico de pragas e biofertilizantes, entre outros inúmeros exemplos de uso final.

Nesse contexto, os biobancos assumem um papel central como estruturas organizadas para coleta, processamento, armazenamento e disponibilização de material biológico e seus dados associados, entre eles: clínicos, demográficos e laboratoriais. No entanto, à medida que os desafios científicos se tornam mais complexos e interdisciplinares, cresce também a necessidade de colaboração entre instituições, superando limites geográficos e institucionais.

É nesse cenário que surge o conceito de rede de biobancos, uma estratégia fundamental para integrar esforços, harmonizar processos, ampliar o acesso ao material biológico e fortalecer a ciência, o desenvolvimento e a inovação. A integração em rede permite que pesquisadores tenham acesso a conjuntos de amostras e dados mais diversos e representativos, aumentando a robustez dos estudos e acelerando a produção de conhecimento científico de alto impacto.

O que é uma rede de biobancos

Uma rede de biobancos pode ser definida como a articulação estruturada entre diferentes biobancos, vinculados ou não à mesma instituição, com o objetivo de compartilhar material biológico, dados associados, infraestrutura, protocolos e boas práticas. Essa integração tem que ocorrer de forma coordenada, respeitando preceitos éticos, legais, técnicos e científicos..

Diferentemente de biobancos isolados, as redes permitem uma ampla visão sistêmica da gestão dos recursos biológicos. Elas facilitam a interoperabilidade entre sistemas, a harmonização de procedimentos e a construção de bases de dados mais amplas e integradas, essenciais para pesquisas multicêntricas e estudos populacionais de grande escala, por exemplo.

Além disso, as redes de biobancos não se restringem apenas ao compartilhamento de material biológico e dados. Elas também promovem o intercâmbio de conhecimento técnico, capacitação de equipes, desenvolvimento de soluções tecnológicas e fortalecimento institucional, criando um ecossistema colaborativo voltado à excelência científica.

Por que integrar biobancos em rede

A integração de biobancos em rede oferece uma série de benefícios estratégicos para a pesquisa científica. Um dos principais é a ampliação do acesso ao material biológico e seus dados, permitindo que pesquisadores utilizem materiais provenientes de diferentes regiões, perfis populacionais e contextos, assegurando a conformidade com exigências éticas, legais, sociais e ambientais. Isso, além de aumentar a representatividade dos estudos e reduzir vieses amostrais, especialmente em pesquisas de saúde pública e genética, também promove a repartição justa e equitativa dos benefícios oriundos de acessos legítimos aos recursos biológicos.

Outro aspecto relevante é o compartilhamento de dados e investimentos. Redes bem estruturadas possibilitam o uso conjunto de bancos de dados, plataformas digitais, sistemas de rastreabilidade e infraestrutura laboratorial. Essa abordagem colaborativa reduz redundâncias, otimiza investimentos e otimiza o uso de recursos públicos e privados destinados à ciência.

A integração também favorece a padronização de processos, o que é essencial para garantir a qualidade, reprodutibilidade, comparabilidade e confiabilidade dos resultados científicos. Protocolos harmonizados de coleta, processamento e armazenamento asseguram que as amostras mantenham sua integridade ao longo do tempo e adequação aos propósitos de uso, independentemente da instituição de origem.

Rede de biobancos no Brasil

No Brasil, a consolidação de redes de biobancos tem avançado de forma significativa nos últimos anos, impulsionada pela necessidade de fortalecer a pesquisa, desenvolvimento e inovação em biotecnologia. Um dos principais destaques é a atuação da Fiocruz, que coordena iniciativas estratégicas voltadas à integração de biobancos em âmbito nacional.

A Rede Fiocruz de Biobancos representa um modelo estruturado de governança, padronização e cooperação entre diferentes unidades e instituições parceiras. Essa iniciativa tem contribuído de forma direta para estudos epidemiológicos, pesquisas sobre doenças infecciosas, desenvolvimento de vacinas e resposta a emergências sanitárias, como observado durante a pandemia de COVID-19.

Além disso, o Brasil conta com diretrizes regulatórias específicas para biobancos, estabelecidas por órgãos como a Anvisa e o Conselho Nacional de Saúde, que fornecem bases legais e éticas para a operação dessas estruturas. A integração em rede potencializa o impacto dessas iniciativas, fortalecendo a pesquisa científica nacional e ampliando a visibilidade internacional do país.

Outras redes nacionais também são igualmente importantes como a RedeBioHa, vinculada ao Hospital de Câncer de Barretos, entre outras redes que promovem uma integração colaborativa de biobancos de universidades, hospitais, centros de pesquisa e de conservação.

Governança e padronização em redes de biobancos

A governança é um dos pilares fundamentais para o funcionamento eficiente de uma rede de biobancos. Ela envolve a definição clara de responsabilidades, fluxos de decisão, critérios de acesso às amostras, gererenicamento de dados e mecanismos de monitoramento da qualidade. Sem uma governança bem estruturada, a integração entre biobancos pode gerar inconsistências, riscos éticos e fragilidade institucional.

A padronização de protocolos é outro elemento crítico. Redes de biobancos precisam adotar procedimentos harmonizados para coleta, processamento, armazenamento, transporte e descarte de material biológico e seus dados associados. Isso garante a confiabilidade, reprodutibilidade, rastreabilidade e a segurança do material biológico, além de facilitar abordagens de avaliação da conformidade, como auditorias e acreditações.

Nesse contexto, normas técnicas desempenham um papel essencial. No Brasil, a ABNT contribui para a elaboração e internalização de normas e diretrizes aplicáveis aos biobancos, seus laboratórios e sistemas de gestão da qualidade. Em nível internacional, a norma ISO 20387 estabelece requisitos específicos para biobancos, abordando aspectos como competência técnica, imparcialidade, confidencialidade e gestão de riscos.

Aspectos éticos, legais e sociais

As redes de biobancos lidam diretamente com materiais e dados sensíveis, o que torna os aspectos éticos e legais ainda mais relevantes. O consentimento informado é um princípio central nesse processo, garantindo que os participantes compreendam como suas amostras e dados serão utilizados, armazenados e compartilhados. Da mesma forma, as autorizações de coleta e os termos de transferência de material e dados são imprescindíveis para o cumprimento das regras para acesso e repartição de benefícios oriundos do uso do Patrimônio Genético Nacional.

O acesso e uso dos recursos genéticos nacionais e a proteção de dados e a privacidade são desafios críticos, especialmente diante da crescente digitalização e integração de bases de dados, impulsionadas por um acelerado desenvolvimento tecnológico. As redes precisam constantemente adotar e atualizar medidas robustas de segurança da informação, alinhadas à legislação vigente e às boas práticas internacionais.

No Brasil, o Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde estabelece diretrizes e normas, assim como avalia e credencia biobancos nacionais que mantêm amostras e dados de seres humanos usados em protocolos de pesquisa por meio do Sistema CEP/CONEP. Este sistema é formado pela instância máxima de avaliação ética em protocolos de pesquisa envolvendo seres humanos (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – CONEP) e pelos Comitês de Ética em Pesquisa regionais dispostos em todo território brasileiro (CEP). O credenciamento neste sistema, além de uma exigência legal, é essencial para garantir a legitimidade das pesquisas e a proteção dos participantes.

De maneira similar, o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGen), que é um órgão colegiado presidido pelo Ministério do Meio Ambiente, busca fazer com que o sistema nacional de acesso e repartição de benefícios seja uma ferramenta de desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental do Brasil. O CGen estabelece normas, entre resoluções e orientações técnicas, que devem ser observadas quanto à sua aplicabilidade pelos biobancos que coletam, usam e distribuem material biológico e dados oriundos da biodiversidade nacional, garantindo assim a conformidade legal de suas atividades nas interações com instituições nacionais e internacionais.

Benefícios científicos e tecnológicos das redes de biobancos

Do ponto de vista científico, as redes de biobancos impulsionam significativamente a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico e a inovação de diversas formas. Por exemplo, a pesquisa translacional, que conecta a pesquisa básica e teórica à aplicação clínica de seus resultados em pacientes, depende muitas vezes do acesso a grandes volumes de material biológico bem caracterizados, o que pode ser facilitado se biobancos estiverem interagindo em rede. Isso permite a identificação de biomarcadores, o desenvolvimento de diagnósticos mais precisos e a personalização de terapias de forma mais rápida e eficaz.

Biobancos articulados em rede também desempenham um papel estratégico no desenvolvimento tecnológico, apoiando a inovação e fortalecendo a interface entre academia, indústria, governo e demais partes interessadas. Ao promover o acesso racional ao material biológico e seus dados associados com adequabilidade às mais diversas finalidades de uso, as redes aceleram o ciclo de inovação e ampliam o impacto social da pesquisa científica.

Além disso, a integração em rede favorece a internacionalização da ciência, permitindo a projeção do Brasil no ecossistema global de biobancos e sua participação em projetos multicêntricos de grande relevância científica e tecnológica.

Desafios para a consolidação das redes de biobancos

Apesar dos benefícios, a consolidação de redes de biobancos enfrenta desafios importantes. A sustentabilidade financeira é um dos principais obstáculos, especialmente em redes formadas por biobancos vinculados às instituições públicas. A manutenção de infraestrutura, de equipes qualificadas, e de sistemas de gestão da qualidade demanda investimentos contínuos e otimização na disponibilização dos recursos, o que reforça a importância de modelos de financiamento estáveis e políticas públicas de apoio aos biobancos.

A interoperabilidade de sistemas de informação também representa um desafio importante, uma vez que diferentes instituições utilizam plataformas, padrões e protocolos de transferência e integração de dados distintos. A harmonização desses sistemas exige investimentos em infraestrutura, planejamento, adoção de normas e padrões de consenso internacional e capacitação técnica.

Outro ponto crítico é a gestão. Redes de biobancos exigem profissionais altamente qualificados, capazes de atuar tanto na dimensão técnica quanto na administrativa e gerencial, garantindo conformidade regulatória, eficiência operacional e excelência científica.

Tendências e perspectivas futuras

O futuro das redes de biobancos está fortemente ligado à digitalização e à integração avançada de dados. Tecnologias como inteligência artificial, big data e sistemas interoperáveis devem ampliar a capacidade analítica das redes, permitindo análises mais complexas e preditivas.

A cooperação internacional também tende a se intensificar, com redes nacionais se conectando a iniciativas globais para enfrentar desafios científicos de grande escala, como doenças raras, pandemias e mudanças climáticas.

Além disso, as redes de biobancos desempenharão um papel cada vez mais relevante no fortalecimento da bioeconomia, apoiando o desenvolvimento sustentável, a inovação industrial e a soberania científica dos países.

Conclusão

As redes de biobancos representam uma infraestrutura estratégica para a ciência, promovendo a integração, a padronização e a colaboração entre instituições de pesquisa. Ao ampliar o acesso a materiais biológicos e dados de alta adequabilidade aos mais diversos propósitos de uso, essas redes fortalecem a produção científica, aceleram o desenvolvimento tecnológico e a inovação, e ampliam o impacto social da pesquisa.

No Brasil, iniciativas coordenadas e em conformidade com normas éticas, legais e técnicas têm demonstrado o potencial transformador das redes de biobancos. Em um cenário cada vez mais colaborativo e interdisciplinar, essas redes se consolidam como pilares essenciais da ciência colaborativa e da inovação em saúde, biotecnologia e biodiversidade.

Os eventos especializados cumprem um papel essencial ao promover diálogo, visibilidade e conexão entre as diferentes partes que integram esse ecossistema científico. O Biobank Summit Brasil se consolida como um espaço para se dialogar sobre governança, inovação, normalização, tendências e estratégias para o segmento dos biobancos, além de estimular parcerias entre instituições, pesquisadores, fornecedores e órgãos reguladores, entre outras partes interessadas. Ao reunir conhecimento técnico, experiências práticas e debates qualificados, o evento contribui diretamente para o amadurecimento das redes de biobancos no país e para o avanço de uma ciência cada vez mais colaborativa, integrada e orientada à inovação.

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