A vacinação é uma das maiores conquistas da saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as vacinas contra apenas 14 doenças salvaram pelo menos 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos. Entretanto, o próprio sucesso da imunização criou um desafio: à medida que determinadas doenças se tornam menos frequentes, parte da população deixa de perceber os riscos que elas representam.
Essa percepção pode contribuir para a hesitação vacinal e, consequentemente, para a redução da cobertura. Quando isso acontece, doenças anteriormente controladas encontram novas oportunidades de circulação.
O sarampo é um exemplo dessa preocupação. Embora o Brasil mantenha o status de país livre da circulação endêmica, voltou a registrar casos em 2026, exigindo o fortalecimento das ações de vigilância e vacinação.
Nesse cenário, compreender a importância da vacinação envolve também conhecer os mecanismos científicos, industriais e regulatórios que garantem a qualidade, a segurança e a eficácia de cada vacina.
O que a cobertura vacinal tem a ver com o retorno das doenças?
A cobertura vacinal representa a proporção de pessoas de uma população que recebeu determinada vacina, conforme os critérios estabelecidos para cada imunizante.
Manter índices elevados é fundamental porque a vacinação não protege apenas quem recebe a dose. Ao reduzir a circulação de agentes infecciosos, também contribui para a proteção coletiva, especialmente de pessoas que não podem ser vacinadas por contraindicações específicas.
Quando a cobertura diminui, ocorre o acúmulo de indivíduos suscetíveis. Dessa forma, mesmo um agente infeccioso introduzido por um viajante, por exemplo, pode encontrar condições favoráveis para provocar novas cadeias de transmissão.
No Brasil, os dados do sarampo ilustram essa vulnerabilidade. Em 2025, a cobertura nacional da primeira dose da tríplice viral chegou a 92,9%, enquanto a segunda alcançou apenas 78,3%, abaixo da meta de 95%.
Além disso, segundo a Nota Técnica Conjunta nº 116/2026 do Ministério da Saúde, 36 dos 38 casos de sarampo confirmados no país em 2025 ocorreram em pessoas sem histórico vacinal.
Os números reforçam que a proteção depende não apenas do acesso às vacinas, mas também do cumprimento dos esquemas recomendados, incluindo as doses adicionais e os reforços previstos para cada faixa etária.
Por que podemos confiar na segurança das vacinas?
Antes de chegar à população, uma vacina percorre um processo de desenvolvimento que envolve pesquisa científica, testes controlados e avaliação regulatória. De acordo com a OMS, esse processo começa com estudos laboratoriais e pré-clínicos, nos quais são investigados os componentes do imunizante, sua capacidade de estimular uma resposta imunológica e seus possíveis riscos.
Quando os resultados justificam o avanço da pesquisa, começam os ensaios clínicos em seres humanos, tradicionalmente divididos em três fases:
● Fase I: envolve um pequeno grupo de voluntários e avalia inicialmente a segurança, a resposta imunológica e a dosagem.
● Fase II: amplia o número de participantes, geralmente para centenas de pessoas, aprofundando a avaliação de segurança e imunogenicidade.
● Fase III: envolve milhares de participantes e busca confirmar a eficácia e caracterizar melhor o perfil de segurança em uma população mais ampla.
Os resultados são submetidos à análise das autoridades regulatórias, que verificam se as evidências apresentadas sustentam a autorização do produto para as indicações propostas. No Brasil, essa responsabilidade cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
É importante destacar que segurança não significa ausência absoluta de riscos. Como qualquer medicamento, vacinas podem provocar eventos adversos, geralmente leves e passageiros, como dor no local da aplicação ou febre. Reações graves também podem ocorrer, mas são raras.
A avaliação regulatória considera justamente a relação entre os benefícios esperados da imunização e os riscos identificados.
Como a indústria farmacêutica garante a qualidade de uma vacina?
A segurança das vacinas não depende exclusivamente dos ensaios clínicos. Ela também está diretamente relacionada às condições de fabricação e ao controle de qualidade durante todo o ciclo produtivo.
Por serem produtos biológicos, muitas vacinas envolvem processos complexos, com matérias-primas de origem biológica e características que exigem controles específicos. Segundo a OMS, a variabilidade inerente aos materiais biológicos e os riscos de contaminação tornam necessários mecanismos rigorosos de garantia da qualidade.
Nesse contexto, a indústria farmacêutica deve atender às Boas Práticas de Fabricação (BPF), que estabelecem requisitos para assegurar a consistência dos processos e a conformidade dos produtos.
Entre os principais controles envolvidos na produção de vacinas, destacam-se:
● Matérias-primas: verificação da identidade, qualidade e adequação dos materiais utilizados.
● Processos produtivos: padronização e validação de etapas críticas para garantir a consistência entre os lotes.
●Controle de qualidade: realização de análises que podem incluir identidade, potência, pureza e esterilidade, conforme as características do produto.
● Estabilidade: estudos que determinam as condições de conservação e o prazo de validade.
● Armazenamento e transporte: monitoramento das condições estabelecidas para cada vacina, incluindo os requisitos da cadeia de frio.
● Rastreabilidade: documentação que permite acompanhar a fabricação, o controle e a distribuição dos lotes.
Esses procedimentos ajudam a identificar desvios e evitar que produtos fora das especificações cheguem à população.
A responsabilidade também é compartilhada com as autoridades sanitárias, que supervisionam os fabricantes, avaliam informações técnicas e aplicam procedimentos de controle e liberação de lotes conforme os requisitos regulatórios.
Portanto, a confiabilidade de uma vacina é construída ao longo de toda a cadeia produtiva, e não apenas no momento de sua aprovação.
A segurança continua sendo monitorada depois da vacinação
Mesmo após a autorização para uso, a avaliação de segurança de uma vacina não termina.
Durante os ensaios clínicos, os participantes são acompanhados em condições controladas. Entretanto, quando um imunizante passa a ser administrado em milhões de pessoas, torna-se possível identificar eventos muito raros ou observar seu comportamento em diferentes grupos populacionais.
É nesse contexto que entra a farmacovigilância.
De acordo com a Anvisa, a farmacovigilância de vacinas envolve a detecção, avaliação, compreensão, prevenção e comunicação de eventos adversos supostamente atribuíveis à vacinação ou imunização, conhecidos como ESAVI.
Uma distinção importante é que a ocorrência de um problema de saúde após a vacinação não significa, necessariamente, que ele tenha sido provocado pela vacina. As notificações precisam ser investigadas para avaliar possíveis relações causais e identificar outros fatores que possam explicar o acontecimento.
No Brasil, esse acompanhamento envolve o Ministério da Saúde, a Anvisa e outras instituições do sistema de vigilância, permitindo atualizar informações sobre riscos e adotar medidas quando necessário.
Esse monitoramento contínuo é parte fundamental da segurança das vacinas, pois permite aperfeiçoar recomendações e identificar possíveis necessidades de intervenção mesmo após a disponibilização dos produtos.
Confiança nas vacinas também depende de informação
Além dos controles científicos e industriais, existe outro componente indispensável para manter as coberturas vacinais: o acesso à informação confiável.
A disseminação de conteúdos falsos ou descontextualizados pode gerar dúvidas sobre a segurança das vacinas, levando pessoas a adiar ou abandonar a imunização. Em agosto de 2026, por exemplo, a Anvisa publicou uma checagem de fatos para esclarecer informações falsas que voltaram a circular diante dos alertas relacionados ao sarampo.
Na publicação, a agência reiterou que as vacinas utilizadas no Brasil passaram pelas etapas necessárias de avaliação de qualidade, segurança e eficácia, além de permanecerem sob monitoramento contínuo. A construção da confiança, portanto, não deve depender apenas de mensagens que incentivem a vacinação.
Explicar como os imunizantes são desenvolvidos, quais riscos são conhecidos e de que maneira sua segurança é acompanhada permite que a população compreenda as evidências que sustentam as recomendações de saúde. A transparência também fortalece a relação entre cidadãos, profissionais de saúde, fabricantes e instituições reguladoras.
Vacinação é resultado de ciência, indústria e vigilância
Evitar o retorno de doenças imunopreveníveis exige mais do que disponibilizar vacinas. É necessário manter coberturas elevadas, garantir o acesso à informação e preservar a confiança nos sistemas responsáveis pela imunização.
Essa confiança é sustentada por um conjunto de processos verificáveis que começam na pesquisa científica, passam pelos ensaios clínicos e pela fabricação industrial e continuam com a fiscalização e a farmacovigilância.
Para a indústria farmacêutica, o compromisso com a vacinação também representa uma oportunidade permanente de aprimorar tecnologias, processos produtivos, métodos analíticos e sistemas de garantia da qualidade.
Nesse contexto, a FCE Pharma se conecta às discussões sobre inovação, desenvolvimento tecnológico e excelência na produção farmacêutica, reunindo diferentes elos de uma indústria essencial para a proteção da saúde pública.
Afinal, preservar as conquistas da vacinação também significa continuar investindo na ciência e nos processos que tornam cada vacina confiável.
Canetas emagrecedoras no SUS o que pode mudar com a nova avaliação da Conitec
Entenda o que mudou na avaliação das canetas emagrecedoras no SUS e como a produção nacional, os preços e a Conitec influenciam o acesso.
Contaminação cruzada em laboratórios e os riscos para os resultados analíticos
Entenda como a contaminação cruzada afeta os resultados analíticos, quais são suas principais fontes e como prevenir interferências em laboratórios.
Os desafios da indústria cosmética para escalar embalagens mais sustentáveis
Reciclabilidade, uso de materiais pós-consumo e sistemas de reutilização avançam no setor, mas exigem soluções que conciliem desempenho técnico, circularidade e viabilidade industrial.
Boleto
Reportar erro!
Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:
Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.