Indústria de química analítica

Os desafios de comprovar a baixa emissão de carbono

Linkedin

Escrito por 21brz

06 OUT 2026 - 09H00

Reduzir a emissão de carbono passou a fazer parte da estratégia de empresas de diferentes setores. Novos combustíveis, matérias-primas, processos e tecnologias são apresentados como alternativas capazes de contribuir para a descarbonização.

Mas, conforme esse mercado amadurece, surge uma exigência adicional: não basta afirmar que determinado produto emite menos. É preciso demonstrar essa redução com dados mensuráveis, rastreáveis e, em muitos casos, verificáveis.

Isso leva a uma pergunta central: quando podemos afirmar tecnicamente que determinado produto ou processo possui baixa emissão de carbono?

A resposta depende de decisões metodológicas, como definir quais emissões entram no cálculo, até onde a análise vai, quais dados representam o processo e qual referência será utilizada para comparação.

Por isso, comprovar a baixa emissão está cada vez mais ligado à qualidade das medições, à rastreabilidade e à adoção de metodologias reconhecidas.

Emissão de carbono, pegada de carbono e intensidade de carbono não são a mesma coisa

Embora apareçam muitas vezes como sinônimos, esses conceitos representam coisas diferentes.

As emissões de gases de efeito estufa (GEE) correspondem à quantidade de gases liberados por determinada atividade, normalmente convertidos em CO₂ equivalente. A pegada de carbono representa o conjunto de emissões associadas a um produto, serviço, organização ou atividade, dentro das fronteiras definidas pela metodologia. Já a intensidade de carbono relaciona essas emissões a uma unidade de produto, energia ou atividade.

Essa diferença é importante porque um processo pode aumentar suas emissões totais ao produzir mais e, ainda assim, reduzir a quantidade emitida por unidade produzida. No RenovaBio, por exemplo, a RenovaCalc é utilizada para calcular a intensidade de carbono dos biocombustíveis e gerar a Nota de Eficiência Energético-Ambiental.

Ou seja, falar em baixa emissão de carbono exige deixar claro qual indicador está sendo avaliado e em relação a quê.

O primeiro desafio está em definir até onde a medição vai

O resultado de uma avaliação de carbono muda de acordo com as etapas consideradas. Um produto pode parecer pouco emissor quando são avaliadas apenas as operações dentro da fábrica. Mas esse resultado pode mudar quando entram no cálculo a origem da matéria-prima, a energia utilizada, o transporte e outras etapas da cadeia.

É nesse contexto que a Análise de Ciclo de Vida (ACV) ganha importância. Dependendo do objetivo do estudo, podem ser consideradas etapas como: matéria-prima, produção, energia, transporte, distribuição, uso e fim de vida.

A definição dessas fronteiras determina quais emissões entram ou não na conta. Por isso, comparar produtos avaliados sob critérios diferentes pode levar a conclusões equivocadas. O RenovaBio é um exemplo brasileiro dessa abordagem, já que sua metodologia considera o ciclo de vida dos biocombustíveis na avaliação da eficiência energético-ambiental. Assim, a pegada de um produto não começa necessariamente no portão da fábrica.

O segundo desafio é a qualidade dos dados

Mesmo a metodologia mais sofisticada depende das informações utilizadas para alimentá-la. Uma avaliação pode envolver dados de consumo energético, rendimento produtivo, origem de matérias-primas, transporte, composição de insumos e características específicas do processo.

Parte dessas informações vem de medições diretas. Outras dependem de bancos de dados e fatores de emissão. É aí que surgem questões fundamentais:

● Os dados representam realmente o processo analisado?

● As medições são rastreáveis?

● Os instrumentos estão calibrados?

● A amostragem é representativa?

● Os fatores de emissão estão atualizados?

● Qual é a incerteza associada ao resultado?

Um cálculo pode parecer extremamente preciso e, ainda assim, ser frágil se os dados de entrada não forem confiáveis.

Esse desafio aparece inclusive na atualização das próprias metodologias. Em agosto de 2026, a ANP abriu participação social para novas versões da RenovaCalc, com revisão de fatores de emissão, bases de dados e parâmetros metodológicos. É um exemplo de como a mensuração de carbono precisa acompanhar a evolução da ciência, dos processos industriais e da disponibilidade de informações.

Qual é o papel das análises laboratoriais na comprovação da baixa emissão?

Comprovar a baixa emissão de carbono não significa simplesmente coletar uma amostra e medir sua “quantidade de carbono”. Na maior parte das aplicações, a pegada ou a intensidade de carbono resulta da combinação entre dados de processo, medições, fatores de emissão e modelos de cálculo.

O laboratório, portanto, não calcula sozinho a emissão de carbono. Mas pode fornecer evidências importantes para caracterizar corretamente algumas das variáveis utilizadas nessas avaliações.

Dependendo do setor, análises laboratoriais podem determinar: composição química, concentração de componentes, pureza, umidade, poder calorífico, propriedades físico-químicas, composição de combustíveis e características de matérias-primas e insumos.

Essas informações podem alimentar modelos ambientais, controles de processo, inventários e processos de certificação. Quanto maior a necessidade de comprovação, maior também a importância de saber como o dado foi produzido. Metodologia analítica, calibração, controle de qualidade, amostragem e rastreabilidade passam a fazer parte da cadeia de confiança que sustenta o indicador ambiental apresentado.

Biocombustíveis mostram como a baixa emissão já virou uma questão mensurável

O RenovaBio é um dos exemplos mais claros de como um atributo ambiental pode ser transformado em um indicador mensurável.

No programa, produtores e importadores certificados recebem uma Nota de Eficiência Energético-Ambiental relacionada à intensidade de carbono do biocombustível. Essa nota participa do cálculo da quantidade de Créditos de Descarbonização, os CBIOs, que podem ser gerados conforme o volume comercializado.

Na prática, isso mostra por que não basta estabelecer uma equivalência automática entre “biocombustível” e “baixo carbono”. Duas unidades que produzam o mesmo combustível podem apresentar desempenhos diferentes. Produtividade, fertilizantes, consumo de energia, rendimento industrial, matérias-primas e logística são algumas das variáveis capazes de alterar a intensidade de carbono. A classificação ambiental, portanto, não depende apenas do produto final, mas também de como ele foi produzido.

O hidrogênio leva esse desafio para uma nova etapa

A mesma lógica aparece no mercado de hidrogênio.

A legislação brasileira estabelece uma definição quantitativa para o hidrogênio de baixa emissão de carbono, considerando a quantidade de CO₂ equivalente emitida por quilograma de hidrogênio produzido e sua análise de ciclo de vida.

Isso significa que a fonte energética ou o processo utilizado não determinam, sozinhos, o desempenho ambiental. Importam também as condições concretas de produção, as fronteiras consideradas, a rastreabilidade das informações e a metodologia utilizada para calcular as emissões. À medida que produtos de baixo carbono ganham valor comercial e regulatório, cresce a necessidade de garantir que esses atributos possam ser comprovados.

Da redução de emissões à comprovação de emissões

Durante muito tempo, uma das principais perguntas da indústria foi: como emitir menos?

Ela continua sendo fundamental. Mas agora precisa vir acompanhada de outra: como provar quanto menos estamos emitindo?

Responder a essa pergunta exige combinar metodologias adequadas, fronteiras bem definidas, dados representativos, fatores de emissão atualizados, rastreabilidade e medições confiáveis. É nesse contexto que laboratórios, tecnologias analíticas e sistemas de controle ganham relevância. Não porque uma única análise seja capaz de determinar toda a pegada de carbono de um produto, mas porque a qualidade da avaliação final depende da qualidade das evidências que a sustentam.

Com o avanço das certificações e dos mercados de baixo carbono, medir com confiabilidade deixa de ser apenas uma etapa técnica. Passa a fazer parte do próprio valor dessas soluções.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por 21brz, em Indústria de química analítica

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Enviar por e-mail