A extinção de uma espécie representa mais do que o desaparecimento dos últimos indivíduos de uma população. Com ela, também podem ser perdidas combinações genéticas acumuladas ao longo de milhares de gerações, incluindo características que ajudaram aquela espécie a responder a doenças, alterações ambientais e outros desafios.
No Brasil, esse risco é particularmente relevante. Com a atualização da Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção em 2026, o país passou a reconhecer 1.279 espécies ameaçadas, além de nove categorizadas como extintas e uma como extinta na natureza. Entre as ameaçadas estão 378 espécies de peixes, 376 de invertebrados, 241 de aves, 123 de répteis, 102 de mamíferos e 59 de anfíbios.
É nesse contexto que os biobancos ganham espaço nas estratégias de conservação de espécies. Ao preservar DNA, células, tecidos, gametas, sementes e outros materiais biológicos, essas estruturas permitem manter uma representação do patrimônio genético disponível para pesquisas e, dependendo do tipo de material conservado, para possíveis aplicações futuras em reprodução e recuperação de populações.
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas como proteger os indivíduos que ainda existem e passa a incluir outra questão: é possível preservar parte da diversidade genética de uma espécie mesmo quando suas populações estão diminuindo?
Por que conservar uma espécie também significa conservar sua diversidade genética
Duas populações podem pertencer à mesma espécie e, ainda assim, apresentar diferenças genéticas importantes. Essa variabilidade é uma das bases da capacidade de adaptação das populações, especialmente diante de mudanças ambientais.
Quando uma população diminui muito ou fica isolada, parte dessa diversidade pode desaparecer ao longo das gerações por processos como deriva genética e endogamia. Isso reduz as possibilidades de combinação genética disponíveis e pode afetar o potencial adaptativo da população. Uma meta-análise publicada na Nature em 2025, reunindo dados temporais de 628 espécies, encontrou perda de diversidade genética dentro de populações em escala global e mostrou que ações de conservação podem ajudar a reduzir esse processo.
Por isso, aumentar novamente o número de indivíduos não significa necessariamente recuperar toda a diversidade que existia antes do declínio populacional. Uma variante genética perdida pode não estar mais presente entre os animais ou plantas sobreviventes.
A conservação moderna, assim, considera não apenas quantos indivíduos permanecem, mas também quanta diversidade genética ainda existe e pode ser preservada.
O papel dos biobancos na conservação de espécies
Biobancos voltados à biodiversidade funcionam como coleções organizadas de materiais biológicos de fauna, flora e fungos. Dependendo de seus objetivos e infraestrutura, podem preservar DNA e RNA, células, tecidos, sêmen, óvulos, embriões, sementes, pólen e outras formas de germoplasma.
O propósito vai muito além de armazenar amostras. Esses materiais formam registros biológicos de indivíduos e populações que podem permanecer disponíveis mesmo décadas depois da coleta.
As diretrizes publicadas em 2025 pela Species Survival Commission da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) tratam justamente desse potencial. O documento propõe abordagens padronizadas desde a coleta e o armazenamento até o uso e compartilhamento das amostras e dos dados associados, buscando aproximar iniciativas que hoje estão distribuídas por diferentes instituições e países.
O tipo de material preservado, entretanto, determina as possibilidades futuras de utilização. Uma amostra de DNA pode ser valiosa para estudos genéticos e genômicos, mas não desempenha o mesmo papel de uma célula viável, um gameta ou um embrião quando o objetivo envolve tecnologias reprodutivas.
Essa diferença torna estratégica a definição do que coletar, de quais indivíduos e populações e em quais condições.
Conservação in situ e ex situ são estratégias complementares
A existência de um biobanco não reduz a necessidade de proteger habitats, corredores ecológicos e populações naturais. Pelo contrário: as duas abordagens atuam em dimensões diferentes da conservação da biodiversidade.
A conservação in situ mantém as espécies em seus ambientes naturais, permitindo que populações continuem interagindo, reproduzindo-se e respondendo às pressões ambientais. Já a conservação ex situ reúne iniciativas realizadas fora do habitat original, como zoológicos, jardins botânicos, coleções científicas, bancos de germoplasma, criobancos e biobancos.
No Brasil, essa integração já aparece nas estratégias de manejo de espécies ameaçadas. O ICMBio estabelece que os programas de manejo populacional podem envolver ações in situ, ex situ ou integradas, de acordo com as necessidades identificadas para cada espécie.
Os biobancos, portanto, devem ser entendidos como uma camada adicional de conservação. Preservar material genético não protege uma floresta, não restaura um ecossistema e não elimina as causas que levaram determinada espécie ao declínio. Mas pode evitar que parte de sua diversidade desapareça definitivamente enquanto outras ações de conservação avançam.
Criopreservação permite conservar materiais biológicos no longo prazo
Entre as tecnologias utilizadas nesses bancos, a criopreservação é uma das mais importantes. O método envolve conservar materiais biológicos em temperaturas extremamente baixas, frequentemente utilizando nitrogênio líquido a aproximadamente −196 °C.
Nessas condições, processos metabólicos e reações que levariam à degradação do material são drasticamente reduzidos. Isso possibilita a conservação de determinadas células, tecidos, gametas, sementes e outras estruturas por períodos muito longos, desde que protocolos adequados sejam utilizados.
E é justamente aí que está uma diferença importante: criopreservar não significa simplesmente congelar uma amostra.
Em seu Guia prático de Criopreservação, voltado a germoplasma vegetal, a Embrapa destaca que os protocolos precisam ser ajustados à espécie, ao genótipo ou ecótipo e à estrutura biológica utilizada. O objetivo não é apenas garantir a sobrevivência após o descongelamento, mas preservar sua integridade estrutural e funcional.
A formação de cristais de gelo, a velocidade de congelamento e descongelamento, a tolerância à desidratação e o uso de crioprotetores são alguns dos fatores que podem influenciar a viabilidade do material. Por isso, diferentes espécies e diferentes tipos de amostra exigem metodologias próprias.
Biobancos brasileiros já preservam milhões de amostras
A dimensão que esse tipo de infraestrutura pode alcançar aparece no próprio Banco Genético da Embrapa, inaugurado em 2014. A estrutura abriga coleções de recursos genéticos animais, vegetais e de microrganismos, utilizando desde câmaras frias até ultrafreezers e tanques de nitrogênio líquido.
No Banco Genético Animal, os números disponíveis em 18 de setembro de 2026 indicavam 2.075.181 amostras, correspondentes a 97 espécies e 39.448 indivíduos. O acervo está relacionado principalmente à conservação de recursos genéticos de interesse agropecuário e de raças localmente adaptadas, embora também inclua materiais de algumas espécies nativas.
Há iniciativas diretamente direcionadas à fauna ameaçada. Um projeto do Grupo de Estudo para Multiplicação de Aves da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, em parceria com o Zoológico de São Paulo, iniciou a criação de um criobanco com células de espécies como arara-azul, arara-azul-de-Lear, ararinha-azul e mutum-de-Alagoas.
Segundo dados divulgados pelo CRMV-SP em agosto de 2025, fibroblastos de 24 aves haviam sido coletados e cultivados, com 17 amostras já criopreservadas em nitrogênio líquido a −196 °C.
São células microscópicas, mas capazes de carregar informações genéticas que poderiam deixar de existir caso determinados indivíduos ou linhagens fossem perdidos.
Do armazenamento ao uso das amostras na conservação
O verdadeiro valor de um biobanco aparece quando o material preservado pode ser relacionado novamente à pesquisa e à conservação.
Amostras de DNA e tecidos podem permitir estudos sobre estrutura populacional, parentesco, diversidade genética, evolução e doenças. Essas informações podem ajudar pesquisadores a compreender quais populações concentram maior diversidade ou quais indivíduos são geneticamente mais próximos, conhecimento útil, por exemplo, no planejamento de programas de reprodução.
Gametas e embriões ampliam outras possibilidades por poderem ser integrados a técnicas de reprodução assistida. Células viáveis, por sua vez, também vêm despertando interesse diante do avanço de tecnologias celulares e genômicas.
Isso não significa, entretanto, que qualquer amostra armazenada hoje poderá necessariamente gerar um novo indivíduo no futuro. As aplicações dependem do material coletado, de sua qualidade, da biologia da espécie e das tecnologias disponíveis.
Essa distinção é especialmente importante diante de perspectivas mais recentes de resgate genético. Uma publicação da Nature Reviews Biodiversity discute como amostras históricas, materiais mantidos em biobancos e até espécies relacionadas podem, no futuro, fornecer variantes genéticas úteis a estratégias de engenharia genômica. Os próprios autores destacam, porém, que essas possibilidades envolvem desafios técnicos, ecológicos, econômicos, éticos e sociais e devem atuar em conjunto com medidas tradicionais de conservação.
Rastreabilidade, qualidade e padronização são essenciais
Preservar milhões de tubos não significa necessariamente construir um biobanco útil. Para que uma amostra tenha valor científico décadas depois de sua coleta, é preciso saber o que ela contém, de onde veio e o que aconteceu com ela ao longo do tempo.
Identificação taxonômica, indivíduo de origem, local e data da coleta, tipo de material, método de processamento e condições de armazenamento são informações capazes de transformar uma amostra isolada em um recurso científico.
Somam-se a isso o controle de temperatura, a avaliação da qualidade e da viabilidade, a gestão dos dados associados e a definição de regras para acesso e compartilhamento.
Esse é um dos principais pontos das novas diretrizes da IUCN. Ao defender abordagens harmonizadas para coleta, preservação, gestão e compartilhamento de amostras e dados, a organização busca fazer com que coleções mantidas por diferentes instituições possam integrar uma infraestrutura de conservação mais ampla.
Quanto maior a interoperabilidade entre esses acervos, maior também a possibilidade de pesquisadores identificarem materiais relevantes sem que cada instituição funcione como uma coleção isolada.
O futuro dos biobancos na conservação da biodiversidade
Genômica, culturas celulares, reprodução assistida e novas tecnologias de engenharia genética estão ampliando as possibilidades de utilização de materiais preservados. Algumas delas já têm aplicação concreta; outras ainda permanecem no campo experimental.
Isso torna difícil prever quais tecnologias estarão disponíveis daqui a algumas décadas. Mas é justamente essa incerteza que torna a conservação de materiais biológicos relevante: uma amostra que existe pode ganhar novas aplicações conforme a ciência avança. Uma diversidade genética que desapareceu não pode ser simplesmente coletada novamente.
Os biobancos não substituem unidades de conservação, restauração de habitats ou o manejo das populações naturais. Sua contribuição está em outra frente: manter disponíveis recursos genéticos que podem apoiar a compreensão e a proteção das espécies ao longo do tempo.
Para que essa camada adicional de segurança realmente funcione, porém, conservação física e informação precisam avançar juntas. Infraestrutura, protocolos adequados, dados associados, rastreabilidade, padronização e colaboração entre instituições são o que transforma uma coleção de amostras em um recurso efetivo para a ciência.
Em um cenário no qual milhares de espécies enfrentam risco de extinção, preservar a biodiversidade significa também pensar no que ainda pode ser necessário no futuro. E, nos biobancos, parte desse futuro pode começar a ser conservada hoje.
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