Indústria farmacêutica

O avanço dos medicamentos injetáveis e o futuro da indústria farmacêutica

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Escrito por 21brz

22 SET 2026 - 12H09

Uma mudança importante está acontecendo no pipeline da indústria farmacêutica. Terapias baseadas em moléculas grandes, produtos biológicos e novas classes de medicamentos estão ganhando participação e, com elas, cresce também a importância das tecnologias relacionadas à administração parenteral.

Em uma análise da Deloitte sobre o pipeline de estágio avançado de 20 grandes companhias biofarmacêuticas, moléculas grandes representaram 55% dos ativos em 2025, ante 51% em 2024. Mais expressiva foi a mudança no valor projetado: a participação desse grupo passou de 45% para 64% no mesmo período.

Esse movimento ajuda a explicar por que o mercado de medicamentos injetáveis passou a ocupar uma posição estratégica que vai muito além da formulação. Ele envolve capacidade produtiva, envase asséptico, materiais de embalagem, dispositivos de aplicação e novas exigências de qualidade.

O que está impulsionando o crescimento dos medicamentos injetáveis?

Parte dessa expansão está associada ao avanço dos medicamentos biológicos, como anticorpos monoclonais, proteínas terapêuticas e peptídeos. Diferentemente de muitas moléculas pequenas, esses compostos apresentam barreiras importantes para administração oral, como degradação no trato gastrointestinal e baixa permeabilidade intestinal. Por isso, grande parte dos produtos biológicos ainda depende de vias parenterais.

Ao mesmo tempo, áreas terapêuticas de forte crescimento vêm ampliando a demanda. Diabetes e obesidade são exemplos evidentes, mas não os únicos. Oncologia, imunologia e doenças raras também concentram modalidades terapêuticas complexas e ajudam a sustentar a relevância dos sistemas injetáveis.

GLP-1 colocou os injetáveis novamente no centro das atenções

Poucas classes ilustram essa transformação tão claramente quanto os agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1. Segundo a IQVIA, esses medicamentos contribuíram com US$ 14 bilhões para o crescimento dos gastos com medicamentos nos Estados Unidos em 2025, dos quais US$ 9,6 bilhões vieram de produtos aprovados para obesidade e comorbidades relacionadas.

Na análise da Deloitte, ativos destinados à obesidade passaram a responder por aproximadamente 25% do valor projetado do pipeline de estágio avançado em 2025, superando a oncologia pela primeira vez nos 16 anos da série analisada.

O efeito industrial desse avanço vai além da demanda pelo princípio ativo. A expansão da categoria pressiona capacidade de fabricação, linhas de envase e disponibilidade de dispositivos, tornando produção e administração partes cada vez mais relevantes da estratégia de lançamento.

Medicamentos biológicos ampliam a importância da via injetável

O crescimento dos injetáveis, portanto, não deve ser interpretado apenas como consequência do sucesso dos GLP-1. Ele acompanha uma transformação mais estrutural do portfólio farmacêutico.

Moléculas grandes exigem atenção especial à estabilidade, ao processo produtivo, à interação com materiais de contato e às condições de armazenamento. Em determinadas formulações, também podem existir requisitos de cadeia fria. Ao mesmo tempo, suas características físico-químicas tornam a administração oral um desafio, especialmente pela suscetibilidade à degradação enzimática e pela dificuldade de atravessar o epitélio intestinal.

Isso faz com que inovação farmacêutica e inovação em sistemas de administração de medicamentos avancem de forma cada vez mais conectada.

O crescimento dos injetáveis movimenta uma cadeia muito maior

Cada novo medicamento injetável mobiliza uma infraestrutura extensa. Entram nessa cadeia equipamentos para produção e envase asséptico, frascos, cartuchos, seringas preenchidas, elastômeros, sistemas de inspeção, tecnologias para controle de partículas e soluções para garantir a integridade da embalagem.

Também cresce a integração entre medicamento e dispositivo. A FDA classifica seringas preenchidas e autoinjetores entre os exemplos de produtos combinados medicamento-dispositivo ou biológico-dispositivo. A agência afirma ainda esperar um grande volume de produtos combinados à medida que os avanços tecnológicos aproximam essas categorias.

Para fornecedores da cadeia farmacêutica, isso abre espaço para inovação não apenas no fármaco, mas nos materiais, componentes, equipamentos e sistemas que viabilizam sua administração.

Da seringa ao autoinjetor, a experiência do paciente também evolui

A expansão dos tratamentos crônicos muda outra variável: o local de administração. Quando o medicamento passa a ser utilizado repetidamente e fora do hospital, facilidade de uso, segurança e precisão de dose ganham peso no desenvolvimento do produto.

Seringas preenchidas, canetas e autoinjetores podem reduzir etapas de preparo e facilitar a autoadministração em determinadas terapias. Mas essa conveniência adiciona desafios técnicos. Compatibilidade entre formulação e dispositivo, desempenho do sistema, conectividade e fatores humanos passam a fazer parte do desenvolvimento. No caso das seringas de vidro, por exemplo, a FDA destaca que a conformidade com um padrão dimensional, isoladamente, não garante a correta conexão com outros dispositivos, exigindo avaliações adicionais de interoperabilidade.

Mais injetáveis significam novos desafios para a indústria

Escalar a produção de medicamentos injetáveis é uma tarefa de alta complexidade. Esterilidade, controle de contaminação e partículas, estabilidade, integridade do sistema de fechamento e consistência do processo são aspectos críticos, especialmente quando entram em cena produtos biológicos.

Esse cenário já se traduz em investimentos. A McKinsey aponta que os gastos de capital do setor de life sciences cresceram 13% ao ano entre 2022 e 2024, impulsionados, entre outros fatores, por GLP-1, mRNA e terapias celulares e gênicas. Mais de US$ 150 bilhões em novos projetos de capital haviam sido anunciados para ocorrer antes de 2030.

O futuro da indústria será mais injetável?

Os dados não indicam o desaparecimento dos medicamentos orais. Ao contrário, a busca por formas não invasivas para proteínas e peptídeos continua sendo uma importante frente de pesquisa. O que se observa é que os medicamentos injetáveis devem permanecer especialmente relevantes em áreas de alta inovação, nas quais moléculas complexas e produtos biológicos ganham espaço.

Para a indústria farmacêutica, isso significa pensar além do princípio ativo. Formulação, produção asséptica, embalagem, conservação e sistema de administração passam a compor uma mesma equação. E, à medida que o pipeline se torna mais complexo, dominar essa integração pode ser tão estratégico quanto desenvolver a molécula que chega ao paciente.

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