Durante muitos anos, a discussão sobre microplásticos em cosméticos esteve concentrada principalmente nas pequenas esferas presentes em produtos esfoliantes. Hoje, o cenário é mais complexo. A presença de materiais poliméricos em formulações envolve diferentes funções, categorias de produtos e características físico-químicas, enquanto novas exigências ambientais e regulatórias começam a interferir diretamente na escolha de matérias-primas e no desenvolvimento de cosméticos.
Essa mudança coloca a indústria diante de um desafio que vai além da simples retirada de um ingrediente. Substituir materiais que contribuem para textura, estabilidade, viscosidade, formação de filme ou sensorial exige encontrar alternativas capazes de entregar desempenho semelhante sem transferir o impacto ambiental para outra etapa do ciclo de vida.
Com novas restrições entrando em vigor, especialmente na União Europeia, a busca por ingredientes biodegradáveis e tecnologias de formulação mais sustentáveis tende a ocupar um espaço cada vez maior nos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento.
O que são microplásticos em cosméticos?
De maneira ampla, microplásticos são partículas de materiais plásticos com dimensões inferiores a 5 milímetros, embora a definição exata possa variar de acordo com o contexto científico ou regulatório. No universo cosmético, uma das formas mais conhecidas são as microesferas plásticas, ou microbeads, historicamente utilizadas em produtos como esfoliantes, sabonetes e cremes dentais.
Mas microesferas e microplásticos não são sinônimos.
Os microbeads representam apenas uma aplicação possível. Diferentes partículas poliméricas podem ser incorporadas intencionalmente às formulações para desempenhar funções específicas. Além disso, nem todo polímero utilizado em um cosmético é automaticamente classificado como microplástico. Características como estado físico, tamanho da partícula, solubilidade, composição química e biodegradabilidade podem interferir em seu enquadramento.
Também é importante diferenciar os microplásticos dos nanoplásticos, que possuem dimensões ainda menores e apresentam particularidades próprias de comportamento e análise.
Essa distinção ganhou relevância à medida que as regulamentações passaram a adotar critérios técnicos mais detalhados. Na União Europeia, por exemplo, a restrição introduzida pela Regulation (EU) 2023/2055 trata especificamente de micropartículas de polímeros sintéticos que atendem aos critérios estabelecidos pela legislação, e não simplesmente de qualquer ingrediente cujo nome indique origem polimérica.
Por que os microplásticos foram incorporados às formulações cosméticas?
A popularização desses materiais não ocorreu por acaso. Polímeros sintéticos oferecem características que podem ser particularmente interessantes para o desenvolvimento de cosméticos, permitindo modificar propriedades físicas e sensoriais com grande precisão.
A esfoliação é provavelmente a aplicação mais conhecida, mas está longe de ser a única. Dependendo de sua composição e estrutura, materiais poliméricos podem contribuir para controlar viscosidade, formar filmes sobre pele, cabelos ou unhas, modificar textura, proporcionar acabamento mais uniforme, absorver oleosidade, gerar efeitos opacificantes ou melhorar a distribuição de pigmentos.
Em produtos de maquiagem, por exemplo, determinados pós poliméricos podem ajudar a produzir uma sensação mais sedosa e melhorar características como espalhabilidade e acabamento. Outros materiais podem participar da encapsulação e liberação de ingredientes ou produzir efeitos visuais, como ocorre com determinados tipos de glitter.
Uma revisão publicada em 2024 na ChemSusChem destaca justamente essa variedade de aplicações e mostra como materiais plásticos foram incorporados à indústria cosmética por sua versatilidade funcional e sensorial.
Essa diversidade ajuda a explicar por que a transição para formulações sem microplásticos é tecnicamente mais complexa do que simplesmente eliminar as antigas microesferas esfoliantes.
Por que eles se tornaram um problema ambiental?
Uma das principais preocupações está relacionada ao destino dessas partículas depois do uso dos produtos.
Em cosméticos rinse-off, como produtos de limpeza e enxágue, partículas podem seguir diretamente para o sistema de esgoto. Por suas dimensões reduzidas e características físico-químicas, parte delas pode alcançar rios, mares e outros ambientes, onde determinados polímeros apresentam elevada persistência.
O relatório Plastic in Cosmetics, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), chamou atenção para os produtos cosméticos e de cuidados pessoais como uma fonte de partículas plásticas intencionalmente incorporadas às formulações. Quando liberadas no ambiente marinho, essas partículas passam a integrar o problema mais amplo da poluição por microplásticos.
Nesse contexto, existe ainda uma distinção entre microplásticos primários e secundários. Os primeiros são produzidos originalmente em pequenas dimensões para determinada finalidade, enquanto os secundários resultam da fragmentação de objetos plásticos maiores ao longo do tempo.
A preocupação ambiental com essas partículas impulsionou uma primeira onda de restrições concentrada especialmente nos microbeads. Mais recentemente, porém, algumas iniciativas regulatórias passaram a considerar um conjunto mais amplo de micropartículas poliméricas adicionadas intencionalmente aos produtos.
A regulamentação está mudando o mercado cosmético
A União Europeia representa hoje um dos principais exemplos dessa mudança. A Regulation (EU) 2023/2055, adotada no âmbito do REACH, estabeleceu restrições para micropartículas de polímeros sintéticos intencionalmente adicionadas a diferentes produtos comercializados no bloco.
Para a indústria cosmética, a legislação prevê períodos de transição que variam conforme a categoria. Cosméticos rinse-off têm prazo até 16 de outubro de 2027. Para produtos leave-on, o período se estende até 16 de outubro de 2029. Já maquiagem e produtos destinados aos lábios e às unhas possuem prazo até 16 de outubro de 2035. Entre 17 de outubro de 2031 e 16 de outubro de 2035, produtos dessas últimas categorias que ainda contenham microplásticos abrangidos pela restrição deverão informar essa presença ao consumidor.
Os diferentes períodos mostram que a transição considera também a complexidade envolvida na reformulação de cada categoria. Substituir uma partícula que desempenha determinada função sensorial ou estrutural exige pesquisa, desenvolvimento, testes e validação antes que uma nova formulação possa chegar ao mercado.
No Brasil, a discussão também avançou, mas o cenário regulatório é diferente. O PL 2157/2026, originado na Câmara dos Deputados e recebido pelo Senado em maio de 2026, propõe proibir a manipulação, fabricação, importação e comercialização de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos que contenham adição intencional de microesferas de plástico. Até setembro de 2026, o projeto permanece em tramitação no Senado. Portanto, não se trata, neste momento, de uma proibição federal já vigente.
Também existe uma diferença de escopo importante: enquanto a regulamentação europeia estabelece critérios para micropartículas de polímeros sintéticos, a proposta brasileira citada concentra-se especificamente na adição intencional de microesferas plásticas.
Reformular não significa apenas substituir um ingrediente
Quando determinado material exerce uma função técnica dentro da formulação, sua retirada pode alterar o comportamento de todo o produto.
Uma substituição pode interferir na viscosidade, estabilidade da emulsão, espalhabilidade, aparência, formação de filme e sensação durante e após a aplicação. Dependendo da matéria-prima escolhida, também pode ser necessário revisar parâmetros do processo produtivo, compatibilidade com outros ingredientes, concentração utilizada e condições de armazenamento.
Por isso, a substituição precisa considerar simultaneamente desempenho, segurança, biodegradabilidade, disponibilidade de matéria-prima, custo e possibilidade de produção em escala industrial.
Até mesmo alternativas de origem natural precisam ser avaliadas tecnicamente. Um material ser renovável ou derivado de biomassa não significa, por si só, que terá o comportamento necessário em determinada formulação ou que seu impacto ambiental será necessariamente menor em todas as etapas de produção.
Nesse sentido, a pressão para reduzir microplásticos pode funcionar como catalisadora de um novo ciclo de inovação em matérias-primas. Em vez de procurar apenas equivalentes diretos, laboratórios e fornecedores têm a oportunidade de redesenhar sistemas de formulação e explorar novas formas de obter propriedades que antes dependiam de polímeros sintéticos persistentes.
Quais alternativas aos microplásticos estão sendo pesquisadas?
Entre os materiais estudados estão biopolímeros e partículas obtidas a partir de fontes renováveis. Amido, celulose, alginato, quitosana, pectina e diferentes gomas naturais aparecem entre as possibilidades investigadas para aplicações cosméticas.
Uma revisão científica sobre microplásticos em cosméticos destaca materiais como amido, celulose, lignina, alginato e pectina entre as alternativas estudadas para substituir determinadas funções desempenhadas por partículas sintéticas. Ainda assim, as propriedades variam consideravelmente entre os materiais, o que impede falar em um substituto único para todas as aplicações.
Pesquisas recentes mostram como esse desenvolvimento pode ocorrer na prática. Em estudo publicado em 2026 na RSC Advances, pesquisadores produziram micropartículas à base de amido, quitosana e derivados de celulose e avaliaram sua aplicação em emulsões de Pickering, sistemas estabilizados por partículas sólidas posicionadas na interface entre as fases.
No experimento, micropartículas de amido de tapioca nativo e quimicamente modificado apresentaram compatibilidade com a formulação desenvolvida. Os resultados indicaram potencial para atuação como coestabilizadores e agentes capazes de modificar a estrutura da emulsão. Em contrapartida, as partículas de quitosana testadas não produziram resultados satisfatórios de textura e estabilização nas mesmas condições, exigindo novas otimizações.
O contraste é importante porque demonstra um dos principais desafios dessa transição: não basta identificar um material biodegradável. É necessário compreender como estrutura, tamanho, superfície e interação com os demais componentes afetam o desempenho final.
Microplastic-free pode se tornar um novo critério de inovação?
À medida que as restrições avançam, a sustentabilidade deixa de estar concentrada apenas em embalagens, redução de resíduos ou origem das matérias-primas e passa a interferir na engenharia da própria formulação.
Isso cria espaço para novos biopolímeros, partículas biodegradáveis, processos de modificação de materiais naturais e sistemas capazes de entregar estabilidade e sensorial com menor persistência ambiental. Também aumenta a importância de fornecedores de ingredientes e laboratórios de P&D, já que o desempenho das alternativas precisará ser comprovado dentro de formulações reais.
Ao mesmo tempo, alegações como “microplastic-free”, “biodegradável” ou “sustentável” exigem critérios técnicos claros. A substituição de um material não torna automaticamente toda a formulação ambientalmente superior, e claims pouco sustentados podem ampliar o risco de greenwashing.
O futuro das formulações sustentáveis, portanto, provavelmente dependerá menos da busca por um único ingrediente ideal e mais da capacidade de combinar ciência de materiais, desempenho cosmético, avaliação ambiental e adequação regulatória.
Um desafio que abre espaço para novas tecnologias
A discussão sobre microplásticos em cosméticos já ultrapassou as antigas microesferas presentes em esfoliantes. Hoje, ela alcança diferentes materiais, funções e categorias de produtos e começa a modificar decisões tomadas ainda nas primeiras etapas do desenvolvimento de uma formulação.
Com novas restrições regulatórias e o avanço da pesquisa em materiais biodegradáveis, a indústria terá de equilibrar desempenho, segurança, sensorial, viabilidade industrial e impacto ambiental.
Nesse processo, retirar microplásticos é apenas uma parte da transformação. O desafio maior está em desenvolver novas maneiras de entregar as mesmas funções, ou até melhorar o desempenho, utilizando matérias-primas e tecnologias compatíveis com uma nova geração de cosméticos. E é justamente nessa reformulação que se abre uma importante frente de inovação para a cadeia cosmética.
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